Previsto para iniciar suas filmagens em breve, Nossos Caminhos marca a estreia de Carla Di Bonito na direção de longas-metragens
Aos 53 anos, Carla Di Bonito decidiu recomeçar sua trajetória no cinema. Hoje, a diretora e roteirista cearense radicada no Reino Unido acumula centenas de prêmios internacionais e se prepara para dar vida ao seu primeiro longa-metragem, “Nossos Caminhos”. O projeto que já conquistou mais de 90 premiações, além de seleções em festivais ao redor do mundo — incluindo reconhecimentos independentes durante os festivais de Cannes, Sundance, Berlim, Roterdã, Veneza e Tribeca, ainda na etapa de roteiro, aposta em uma narrativa profundamente feminina e enraizada no Nordeste brasileiro, mas de alcance universal.
Com elenco protagonizado por atrizes como Dani Gondim, Hermila Guedes e Marcélia Cartaxo, e uma equipe majoritariamente composta por mulheres, o filme traz à tela uma história de dor, reencontro e cura, inspirada nas próprias vivências da cineasta. Nesta entrevista, Carla fala sobre suas origens, a escolha por um cinema guiado por vozes femininas e os caminhos que deseja trilhar na próxima fase de sua carreira.
Seu percurso no cinema começou aos 53 anos e hoje você já soma centenas de prêmios internacionais. O que teria dito à Carla de antes desse recomeço se pudesse voltar no tempo?
Meu percurso no cinema recomeçou aos 53 anos, após uma longa parada por motivos familiares. Na realidade, eu comecei em 2006 aos 40 anos quando escrevi, produzi e dirigi meu primeiro curta “Friday, Saturday and Sunday”. Depois disso foram longos 12 anos esperando o recomeço. Foi quando resolvi aos 53 anos, estudar cinema e me graduei 3 anos depois. Eu teria dito exatamente o que eu disse a mim mesma: Não duvide, confia e segue em frente. Você tem muitas histórias lindas e fortes pra contar!
“Nossos Caminhos” nasce de uma dor íntima, mas se expande para falar de reconciliação e cura. Em que momento você percebeu que essa história não era só sua, mas também de muitas outras mulheres?
Não existiu um momento exato. Eu cresci testemunhando as dores vividas, principalmente, por mulheres na minha região. Sabia que a minha dor era um reflexo de muitas outras dores, que fazia parte de um ciclo e, eu desde cedo, sentia e sabia que eu precisava quebrar aquele ciclo. Da minha família, fui a primeira a fazer isso. Eu tinha grandes sonhos mesmo não tendo os recursos, lutei por eles com tudo o que tinha. Existem muitas Carlas espalhadas mundo afora, muitas Luzinetes, muitas mulheres que lutam continuamente para ter voz, para serem visíveis de uma maneira ou outra. O que eu entendi com isso é que nós mulheres não somos meras sobreviventes, mas somos na realidade vitoriosas! Quando uma obra nasce da verdade mais profunda, ela toca no universal. Nos curamos juntas através da arte!

Você escolheu uma equipe majoritariamente feminina, algo raro no audiovisual. Que diferenças práticas e emocionais isso traz para o set?
Escolher uma equipe majoritariamente feminina foi quase um ato de coerência com a história que eu quero contar. Não se trata de excluir, mas de incluir quem historicamente foi silenciada. O resultado é visível, há mais escuta, mais empatia, mais colaboração. Na prática isso se traduz com menos hierarquia rígida e mais troca criativa. Emoções são acolhidas e não vistas como fraqueza. Conflitos são resolvidos com diálogo, não com imposição. Esse clima não apenas humaniza o processo, mas potencializa a própria obra, porque a energia de cuidado, sensibilidade e força feminina atravessa cada plano, cada escolha. A diferença é que no final, o filme não carrega só a minha visão, mas a soma de muitas vozes que se sentiram, de fato, parte da construção.
Seus filmes já circularam em mais de 40 países. O que significa para você contar uma história profundamente nordestina e, ao mesmo tempo, universal para o público?
Para mim é uma alegria e também uma responsabilidade imensa. Carregar o Nordeste nas imagens, nos sotaques, na paisagem humana e natural, e afirmar que nossas histórias têm potência para atravessar fronteiras. Ao mesmo tempo, percebo que quanto mais verdadeira e enraizada é a narrativa, mais universal ela se torna. O Nordeste é o meu ponto de partida, mas o cinema é o meu ponto de encontro onde nossas particularidades se transformam em linguagem comum. Então, o que nasce da caatinga pode ecoar no mundo inteiro. E ao contar o íntimo da minha terra eu estou, de alguma forma, contando também sobre a humanidade.
Você foi jornalista na BBC e só depois se dedicou ao cinema. O que a linguagem jornalística ainda deixa de marca no seu olhar como diretora e roteirista?
O jornalismo me ensinou a olhar o real com profundidade, a escutar sem pressa e a buscar a essência por trás de cada história. Essa marca nunca saiu de mim. Como diretora e roteirista, levo comigo a atenção aos detalhes, a urgência da verdade e o respeito por quem vive as narrativas que inspiro nas minhas ficções. A diferença é que, no cinema, posso dar corpo poético a essas verdades transformando fatos em imagens, silêncios, emoções. O jornalismo me deu rigor e compromisso, o cinema me dá liberdade e respiro. No meu trabalho os dois se encontram: rigor para não perder a honestidade e arte para expandir os sentidos.
Além de “Nossos Caminhos”, você já mencionou estar desenvolvendo outros projetos autorais, como “Connor e Sonia”. O que podemos esperar do seu cinema nos próximos anos e quais caminhos você ainda deseja explorar como diretora?
“Nossos Caminhos” assim como “Luzinete”, é um mergulho íntimo, mas o que vem pela frente amplia ainda mais esse horizonte. Projetos como “Connor and Sonia” mostram meu desejo de transitar entre culturas, conectar o Nordeste ao mundo e falar de encontros improváveis, que revelam o que temos de mais humano. O que podem esperar do meu cinema nos próximos anos e exatamente isso: histórias que nascem de uma verdade pessoal, mas que expandem para tocar em linguagens universais – amor, perda, reconciliação, pertencimento. Quero continuar explorando narrativas femininas, plurais, intensas. Gostaria também de fazer a adaptacao de um livro britânico, que li aos 16 anos e que me daria a oportunidade de explorar outras realidades que também tem feito parte de mim nos últimos 40 anos desde que deixei o Brasil.
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