Curta-metragem une live-action e animação 2D para discutir o assédio no ambiente de trabalho e os impactos emocionais de quem vive a violência
Em um país onde falar sobre assédio ainda é um desafio, um grupo de estudantes da UFSCar e da USP decidiu transformar o silêncio em protagonista. O curta-metragem “Nó na Garganta”, dirigido por Heliz Petrechen, aposta em uma narrativa sem diálogos e na fusão entre live-action e animação 2D para representar as marcas invisíveis da violência sofrida por mulheres no ambiente de trabalho.
Mais do que uma escolha estética, a ausência de fala é também um posicionamento político: traduz a dificuldade de tantas mulheres em expressar o trauma vivido e, ao mesmo tempo, escancara o peso de serem silenciadas. No filme, o silêncio não é vazio, é cheio de significados. Ele sufoca, e se materializa na tela através de um laço vermelho animado que simboliza o “nó na garganta”, metáfora das emoções que não conseguem ser ditas.
A diretora do curta, Heliz conversou com o Cartaze sobre os bastidores dessa produção, as escolhas artísticas e os desafios éticos de retratar uma dor coletiva sem recorrer a imagens explícitas.
Cartaze: O silêncio no curta é colocado não apenas como ausência de fala, mas como uma
escolha simbólica e política. O que esse recurso representa para você pessoalmente
e artisticamente, e de que forma ele ajuda a traduzir a vivência de tantas mulheres em
situações de assédio?
Heliz Petrechen: A ausência de diálogos não foi apenas uma escolha estética, mas política. Ao remover a
distração das palavras, eu convido o espectador a se conectar de forma mais íntima com a
protagonista, tornando a experiência mais visceral. O silêncio no filme nasce da dificuldade
da protagonista falar sobre o trauma, que vira arte quando ela tenta se expressar. Em “Nó
na Garganta” esse silêncio, que tantas mulheres mantêm sobre situações de violência, é
justamente para expressar o grito calado de uma vítima. E é o meu grito também.

C: A ideia de unir live-action e animação 2D chama atenção pela originalidade. Como
nasceu essa escolha estética e quais foram os principais desafios de costurar essas
duas linguagens de forma harmônica dentro da narrativa?
HP: Desde o início, eu queria que o laço que representa o nó na garganta da protagonista
fosse metafórico, porque uma abordagem poética permite universalizar a dor, enquanto uma
abordagem realista de violência poderia afastar quem está assistindo e causar gatilhos em
vítimas. A ideia de fazê-lo por meio de animação 2D veio naturalmente para mim, porque
sempre fui apaixonada por essa técnica e ela permitia transmitir o trauma de forma
simbólica. O maior desafio foi dar presença a algo invisível no set, garantir que as atrizes e
eu víssemos algo que não estava lá fisicamente.
C: Trabalhar sem falas exige uma comunicação muito precisa de emoções por meio
da atuação, da fotografia e da montagem. Como foi a experiência de dirigir os atores
e a equipe nesse contexto, em que cada detalhe precisava falar por si?
HP: Dirigir um filme sem falas foi um desafio, mas também um processo de aprendizado em
conjunto com os atores e a equipe. Era algo novo para todo mundo, então eu precisava
explicar bem o que eu queria transmitir e também escutar muito o que as outras pessoas
tinham para acrescentar. Na câmera, me preocupei em transmitir o sufoco da personagem
pela proximidade do enquadramento e, às vezes, por uma câmera na mão trêmula. Na
atuação, o mais importante foi a troca com o elenco, e a escolha dos atores foi o que
permitiu ter personagens que contassem uma história mesmo sem diálogos. Na montagem,
cada corte foi pensado para equilibrar o sufoco da personagem e o caráter reflexivo do
curta.
C: Retratar o assédio é também lidar com uma dor social e coletiva. Como diretora,
quais foram suas preocupações éticas e emocionais ao transformar essas
experiências em obra audiovisual?
HP: Minha maior preocupação ao retratar o assédio foi fazer um filme que não mostrasse
violência de forma explícita. Quis tratar o tema com a sensibilidade que ele merece, para
que qualquer mulher pudesse assistir e se sentir acolhida. Ao focar nas consequências
emocionais em vez do ato de violência em si, busquei evitar a revitimização da personagem
e convidar o público a focar na sua jornada de cura. Também foi muito importante criar um espaço de muita escuta no set, para que a equipe e as atrizes se sentissem seguras para
se expressar.
C: O curta nasce dentro de um espaço acadêmico. Em que medida o ambiente
universitário possibilitou a experimentação estética e narrativa que talvez não fosse
possível em outros contextos de produção?
HP: O ambiente universitário nos deu duas coisas fundamentais: estrutura e liberdade.
Estrutura porque pudemos filmar em espaços como a Biblioteca da EESC e o Centro
Cultural da USP São Carlos, graças ao apoio da instituição, sem custo. E liberdade porque
o contexto acadêmico nos permitiu arriscar esteticamente e narrativamente de um jeito que
talvez fosse mais difícil em uma produção de mercado.

C: O título já carrega uma força simbólica. Que mensagem você gostaria que ecoasse
no público após assistir Nó na Garganta, especialmente para mulheres que se
identificam com esse “nó” e, muitas vezes, permanecem silenciadas?
HP: A mensagem é simples: Você não está sozinha. O filme mostra o que eu aprendi: buscar
apoio é essencial para a cura, e esse apoio pode vir em uma conversa com uma amiga,
colega de trabalho, ou até mesmo uma desconhecida. O importante é romper o silêncio,
tirar esse nó da garganta. E é isso que o próprio filme é, minha forma de quebrar o silêncio
e acolher a mim e a outras mulheres que passaram por uma situação de assédio. Nó na
Garganta é essa conversa.
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