Pedro Santi revisita a infância periférica e transforma memórias em cinema em “Memória de Pivete”

Em entrevista o diretor fala sobre o poder do sonho, da coletividade e da arte como ferramenta de identidade e transformação social

Entre pipas colorindo o céu e o som das chuteiras batendo na bola, “Memória de Pivete” resgata o encanto da infância e o poder do sonho em meio às vielas da periferia. O curta-metragem, dirigido e roteirizado por Pedro Santi, tem emocionado plateias e conquistado reconhecimento em festivais por todo o país, entre eles, o 36º Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo, onde integrou o programa Todas as Vozes e Sonhos, e o 4º Cinemaz, em Minas Gerais, onde levou os prêmios de Melhor Direção e Melhor Roteiro na categoria infantojuvenil.

Agora, o filme chega à 24ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, um dos mais importantes eventos dedicados à infância e juventude no Brasil. Produzido pela Mangueio Filmes, “Memória de Pivete” se passa durante a Copa do Mundo de 2006, e acompanha um grupo de crianças que vive a magia do futebol e a força das amizades que nascem nas ruas, um retrato sensível e poético da infância periférica e das memórias que moldam quem somos. (assista o trailer da produção aqui)

Com uma trilha sonora que une MC Hariel, MC Kevin, Léo Braga e Oestedu55, o curta reafirma o compromisso de Pedro Santi com um cinema popular, afetivo e transformador, que enxerga a arte como ferramenta de identidade e resistência. Nesta entrevista, o diretor fala sobre as inspirações que deram origem ao projeto, a importância de revisitar o imaginário infantil e o papel do audiovisual como instrumento de memória e transformação social.

Cartaze: O filme se passa durante a Copa de 2006, um momento muito simbólico para o imaginário brasileiro. O que te inspirou a escolher esse recorte temporal para contar a história?

Pedro Santi: A idade que eu tinha na época – 9 anos – e o clima futebolístico e de festa.  Em 2006, a infância era diferente, sem telas em excesso e com pouco com a tecnologia, brincávamos mais na rua de fato. A copa do mundo historicamente sempre foi um momento especial na vida do Brasileiro, nesse ano, tínhamos um time mágico, arte pura – os criadores do “Joga Bonito”. Sem contar que éramos os atuais campeões vindo de 2002. A Copa é sempre no meio do ano, próximo às férias escolares…enfim, muitas memórias. Acho que foi a primeira vez que eu de fato quis ser jogador de futebol, queria ser o Ronaldinho Gaúcho e ter uma chuteira total 90 da Nike. 

Foto: divulgação/Mangueio Filmes

C: “Memória de Pivete” fala sobre infância periférica, amizade e sonhos. De que maneira essas temáticas dialogam com a sua própria trajetória e vivências em Caieiras?

PS: Essas temáticas são o que movem qualquer ser-humano na minha visão. E nosso primeiro contato com essas necessidades é na infância. Nascemos para conviver entre a gente e o sonho é o que nos move. O ser periférico potencializa isso pois aprendemos a conviver em comunidade desde cedo – você conhece o tio da mercearia, o dono do lava-rápido, a tia costureira, o marceneiro seu vizinho, o craque que joga na várzea no fim de semana que é amigo do seu primo e por aí vai. A vida acontece no compartilhar. Muito o oposto de quem acaba vindo de camadas mais abastadas da sociedade que tem como premissa separar, se isolar, ser exclusivo, viver longe da convivência social. Aqui, até por falta de escolha, somos obrigados a conviver – nas escolas, igrejas, bares, campos de futebol, salões de beleza, barbearias…isso molda caráter e nos ensina que a vida tá no simples, no corpo a corpo, olho no olho.

C: A produção tem um elenco jovem e diverso. Como foi o processo de preparação e construção dos personagens com essas crianças e adolescentes?

PS: A sagacidade de Roma Oliveira na preparação de elenco foi fundamental. Ele que tem uma vasta atuação no teatro, proporcionou exercícios de improviso, integração e contextualização temporal da época em que estávamos falando no filme. Isso fez o elenco se sentir muito confortável na hora que caímos para o set, foi um processo natural, leve e o melhor: muito divertido. Essa convivência antes das gravações também proporcionou a criação de laços reais entre eles, o que foi determinante para a dramaturgia do filme. 

C: Você menciona que o filme é “sobre sonhos” e sobre “lembrar de ser brincante”. Que mensagem você gostaria que as crianças — e os adultos — levassem ao assistir o curta?

PS: Para as crianças: sejam crianças. Brinquem, sonhem, imaginem. Não se preocupem demais em crescer, gente adulta é chata demais. Para os adultos: Protejam nossas crianças. Precisamos lutar para que todas as crianças, especialmente as crianças pobres, pretas, indígenas e periféricas possam de fato, curtir a infância – com direitos garantidos, distante de qualquer violência e/ou discriminação. Ainda para os adultos: também não deixe sua criança interior adormecer nessa rotina que endurece, a gente deixa de ser criança um dia mas nossa criança nunca deixa a gente. 

C: Como você enxerga o papel do audiovisual nesse processo de transformação cultural e social?

PS: Determinante. Cinema é registro de memória, de identidade. A gente precisa do cinema pra se enxergar como povo, como país. Precisamos nos ver na tela, com toda nossa complexidade, diversidade, felicidade, sofrimento e subjetividade. Só assim, conseguiremos propor também um novo modelo de sociedade para conviver – esperamos que mais justa e solidária. Mais coletiva. Contemos nossas histórias. Viva o cinema independente, marginal e periférico. 

C: A trilha sonora é um destaque em Memória de Pivete, misturando nomes como MC Hariel, MC Kevin e Léo Braga. Como foi feita a curadoria musical e o quanto ela ajuda a contar da história?

PS: Fico feliz quando elogiam a trilha do filme porque é sempre uma parte que sou muito cuidadoso. Gosto muito de música e ouço todo dia o tempo inteiro. Acho que esse contato com a musicalidade também vai me fazendo ter ideias. MC Hariel eu vi uma entrevista que ele cantava à capela essa música que foi composta pelo pai dele, que era vocalista da banda Raíces de América. Quando ouvi já linkei na hora com o filme porque a cena do pipa já estava escrita – “colorindo o céu do sétimo mês”. Léo Braga e Oestedu55 são meus amigos pessoais e são novos talentos da cena do RAP em São Paulo – eu mandei o roteiro pra eles e pedi uma composição original pro filme, eles toparam e fizeram uma obra de arte, que pra mim é o filme contado em forma de música. MC Kevin sou muito fã e Joga Bola é uma música clássica dele – eu na rua ouvindo essa pedrada já imaginava ela no final do filme enquanto ainda só sonhava com ele sendo produzido. Então pra mim é fundamental a música pra me ajudar a contar a história pois são colaborações artísticas que convergem numa poesia coletiva. Como meu amigo Oestedu55 cantou: “parece sobre mim, mas é mais sobre nós”. 

Foto: divulgação/Mangueio Filmes

C: “Memória de Pivete” celebra a infância, mas também denuncia as desigualdades que marcam essas infâncias periféricas. Como equilibrar a poesia e a crítica social dentro de um curta-metragem?

PS: Pra mim, arte sem crítica social é publicidade. É pra vender coisa. Nós como artistas precisamos propor novas possibilidades de mundo – fortalecer um imaginário coletivo que ajude a despertar consciências, começando pela nossa. Mas pra falar de utopia precisamos entender a realidade. A linha entre romantizar e estereotipar é muito tênue, e dentro disso, precisamos entender que a periferia não é só violência, miséria e sofrimento. Isso a gente já sabe que tem, mas tem mais coisa – tem alegria, tem felicidade, tem coletividade, tem sonho. Parte da luta para chegar num ideal é entender o cerne do problema e propor caminhos. Tudo isso começa imaginando o novo, e o cinema, a arte, a poesia ajuda nosso povo com isso. 

C: Depois de Memória de Pivete, o que vem a seguir na sua trajetória? Há novos projetos sendo desenvolvidos?

PS: Tenho outros filmes em mente que preciso captar recursos para produzir. Enquanto isso não acontece continuo minha luta por um cinema e uma arte popular, pra todo mundo. Realizando oficinas, eventos, cineclubes e sempre produzindo algo coletivamente – videoclipes, mini-documentários, etc. 

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