No segundo volume da trilogia, autor expõe engrenagens invisíveis de corrupção, lealdades quebradas e sobrevivência num território onde justiça e vingança caminham lado a lado
A Paraíba de André Luiz Nakamura não é apenas cenário, é organismo vivo, pulsante, incendiado por interesses ocultos e feridas sociais que insistem em não cicatrizar. Em Espíritos Vadios – Fogo na Fornalha, o segundo livro de sua trilogia, o autor aprofunda o mergulho em uma terra marcada por disputas políticas, facções criminosas e alianças tão frágeis quanto necessárias. A morte de coronéis, que serviu de estopim em Antros de Raposas, transforma-se agora em faísca para uma guerra ainda mais imprevisível, na qual sobrevivem apenas os que dominam a arte de navegar entre moralidade e conveniência
Nakamura compõe um retrato incômodo, e ao mesmo tempo fascinante, de um país que reconhecemos de longe, mas fingimos não ver de perto. Seus personagens, que transitam entre o trágico, o cômico e o profundamente humano, revelam como o poder corrompe, reorganiza e destrói, sempre com um custo.
Nessa entrevista, o autor reflete sobre a construção desse universo, o choque entre instituições e crime organizado, e os limites que todos somos capazes de atravessar quando colocados à beira do abismo.
Cartaze: Espíritos Vadios – Fogo na Fornalha dá continuidade à trama iniciada em Antros de Raposas. Como foi o processo de retomar esse universo e aprofundar seus personagens após o primeiro livro?
André Luiz Nakamura: Foi um desafio, porém gratificante. Os cenários já estavam prontos, com os principais personagens apresentados, já preparado o ambiente para a entrada de novos, que terão significativa importância na trama, em especial a polícia e o Ministério Público, empenhados em combater o crime. Em “Fogo na Fornalha”, a participação de autoridades públicas passa a ser mais atuante. O deboche, no entanto, continua em alta dose.
C: A obra mostra uma Paraíba tomada por disputas políticas e criminais. Como surgiu a ideia de ambientar a trilogia nesse cenário e o que essa escolha representa simbolicamente?
AN: Sobre esse pujante estado, existem arquétipos e estereótipos em relação à “mulher macho”, com vários significados correlatos, que foram fortificados por Humberto Teixeira, Gonzagão e, mais recentemente, por Chambinho do Acordeon. Há mulheres empoderadas na trama. O cenário é oportuno. A história da Paraíba é também marcada por conflitos envolvendo ocupações de terras, coronéis, cangaceiros, jagunços, e congêneres. Lá é onde o sol chega primeiro, no Brasil, nas Américas. A Paraíba inspira.

C: A corrupção e o poder são temas centrais no livro. Em algum momento, você se inspirou em fatos reais da política brasileira para construir essa narrativa?
AN: Infelizmente, o tempo todo, inclusive, dormindo, por meio de sonhos/pesadelos. O noticiário revela fatos lamentáveis, que fazem decepcionar. Triste constatação do mau uso da opulenta riqueza do Brasil, tanto geológica quanto cultural! Tento abordar esses temas com um alto deboche (para mim, pelo menos, o melhor meio de enfrentar as adversidades é de forma bem-humorada).
C: Seus diálogos têm uma força muito particular, cheios de ironia e naturalismo. De que forma sua formação em jornalismo, letras e publicidade influenciou essa escrita tão viva e visual?
AN: Influenciou no sentido de que que eu fizesse o oposto. Sempre lidei com textos formais, técnicos, pretensamente imparciais. Policiando-me, saí do padrão e dos critérios para aqueles gêneros textuais, para a explorar a linguagem que a ficção literária permite (tentando não descurar de manter os olhos atentos, a consciência crítica).
C: Além de um thriller político, o livro traz uma crítica moral sobre os limites da justiça. O quanto essa discussão ética te move como autor?
AN: Com inumeráveis leis brasileiras (impossível até para o maior cabedal em Direito conhecer a todas), estamos sempre transgredindo alguma delas. No âmbito da moral, aí vale tudo! Mesmo, em várias oportunidades, defendendo interesses que são apenas próprios, muitos acreditam estarem agindo corretamente. As pessoas podem convencer-se a si mesmas, seja lá do que queiram.
C: A trilogia Espíritos Vadios marca sua estreia na literatura. O que te motivou a dar esse salto da carreira jurídica para a ficção literária?
AN: Entre outros motivos, o desejo de me aventurar na literatura, algo que nunca tinha feito. Pretendi explorar o universo da ficção, lidando com outros textos (não técnicos) para sentir até onde poderia chegar, nessa viagem. Constatei que, de fato, escrever se aprende escrevendo.
C: Já podemos esperar o terceiro volume da trilogia? O que pode adiantar sobre o desfecho dessa guerra sobre o desfecho dessa guerra de poder e corrupção.
AN: Em “Carcaças de Feras”, que encerra a Trilogia, o suspense se acentuará, os mistérios serão esclarecidos, a violenta guerra chegará ao clímax e um dos lados vai perder feio. Todos são perigosos; todos correm perigo. Vamos descobrir quais deles é que são os “mais” perigosos.
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