Um jardim de segredos: a autora Stefany Borba fala sobre seu novo thriller psicológico

Entre silêncios familiares, traumas e mistérios enterrados, escritora revela como construiu uma narrativa que mistura drama, crítica social e suspense



Stefany Borba conduz o leitor a um jardim onde nada é o que parece. Em seu mais novo romance, Um jardim onde morrem as flores e nascem segredos (Trend Editora), a autora mergulha em um thriller psicológico que mistura drama familiar, mistério e crítica social de um jeito pouco visto na literatura nacional.

A trama acompanha Maria Isabel, a Bel, que retorna à casa da avó recém-falecida e acaba descobrindo muito mais do que lembranças enterradas. Em meio ao luto e às marcas do passado, ela se depara com os rastros de um serial killer conhecido como Assassino das Bonecas, responsável por crimes que abalaram o interior paulista nas décadas anteriores.

Entre três gerações de mulheres atravessadas por silêncios, perdas e sobrevivência, Stefany constrói uma narrativa brutal e sensível, que convida o leitor a olhar para dentro das casas, das memórias e dos próprios medos.

Hoje, conversamos com a autora sobre o processo criativo, os segredos por trás dessa história e a força de personagens femininas que enfrentam tanto a violência externa quanto as cicatrizes invisíveis que a vida impõe.

Cartaze: O que te inspirou a escrever “Um jardim onde morrem as flores e nascem segredos” e transformar um jardim em palco de crimes tão brutais?

Stefany Borba: O livro nasceu a partir de algumas conversas que tive com a minha avó, em que ela contou situações que viveu e também que presenciou outras mulheres viverem nos anos 70, simplesmente por serem mulheres. Na mesma época, conheci o podcast Praia dos Ossos, que aborda o assassinato de Ângela Diniz, morta pelo próprio companheiro. No julgamento, em vez de ser responsabilizado, foi o comportamento dela que esteve no centro das acusações, como se a vítima fosse a culpada. Um pouco antes disso, também me aproximei da história da Maria da Penha e compreendi a fundo tudo o que ela sofreu nas mãos do marido.


Esses casos históricos dialogam com o presente, porque ainda hoje continuamos a ver notícias
semelhantes: agressões, feminicídios. Recentemente, por exemplo, um homem desferiu 60 socos na
namorada dentro de um elevador. Isso me faz refletir sobre o que realmente mudou com o passar dos anos e o que apenas ganhou novas nomenclaturas. O livro surge justamente como um convite para pensar sobre isso e abrir um diálogo urgente sobre a desigualdade de poder entre os gêneros, algo que, a meu ver, ainda está muito distante da equidade. Em relação ao “jardim”, o assassino das bonecas é um personagem que distorce trechos bíblicos para justificar seus crimes nos anos 1980. A ideia do jardim remete à visão dele do Jardim do Éden, em que todas as mulheres que não se enquadram no comportamento esperado pela sociedade são vistas como ervas daninhas que precisam ser eliminadas. O título também carrega uma simbologia: fala das mulheres que tiveram suas vidas interrompidas antes mesmo de poderem florescer plenamente, mulheres com sonhos, propósitos e desejos que nunca chegaram a se realizar.

C: Bel é uma protagonista feminina forte. Como foi o processo de construção dessa personagem e de suas fragilidades?

SB: A Bel é, e eu acredito que ela traz muito das mulheres próximas a mim, principalmente essa força que precisa se manter mesmo quando tudo ao redor desmorona. A construção da personagem nasceu de muita pesquisa, mas também carrega um pouco de mim, das minhas vivências e das minhas próprias fragilidades.

C: O livro mistura suspense psicológico, drama familiar e crítica social. Como você equilibrou esses
elementos para que a narrativa permanecesse coesa?


SB: Não foi fácil. O livro passou por quatro reescritas desde a sua versão original até que todos os pontos da trama estivessem bem amarrados. Histórias desse tipo costumam deixar pontas soltas, mesmo quando existe um roteiro inicial antes da escrita. O segredo, para mim, foi dar um tempo para a história descansar, revisitar o texto depois de algumas semanas e contar com diferentes olhares. As contribuições de editoras e de leituras críticas foram essenciais. Profissionais como Juliana Cury, Nayra Ribeiro e Luciana Garcia, que estiveram envolvidas na edição e revisão, ajudaram muito a manter a narrativa coesa e a resolver possíveis furos, além de me auxiliarem a manter o equilíbrio dos elementos.

C: A história é atravessada por três gerações de mulheres: avó, mãe e neta. Por que era importante para você dar voz a essas diferentes perspectivas femininas?

SB: Foi muito importante para mim, porque conversar com mulheres de diferentes gerações fez parte essencial da construção da história. Essa troca me ajudou a compreender o que realmente mudou ao longo dos anos, quais conquistas foram fruto de tanta luta no passado quando falamos sobre os direitos das mulheres, e também o que, infelizmente, ainda permanece igual até hoje. Refletir sobre tudo isso seria muito mais difícil sem enxergar através das experiências de diferentes gerações.

Foto: divulgação/Trend Editora

C: Seu romance é classificado como young adult, mas traz questões densas como violência, luto e traumas. Como foi pensar em um equilíbrio entre impacto e sensibilidade para esse público?


SB: Realmente é um tema muito delicado, e acredito que uma das razões para eu ter reescrito esse livro tantas vezes foi justamente a busca por equilíbrio, sem cair na superficialidade. A obra é um Young Adult 16+, mas também poderia ser classificada como New Adult por causa dos temas que aborda. Dentro da narrativa, porém, existem subtemas mais leves, como o primeiro amor, a amizade na adolescência e os momentos em família. Também acompanhamos a personagem aprendendo a lidar com seus sentimentos no início da vida adulta. Esses respiros ajudam a suavizar a leitura e dão à história um ritmo menos pesado, mesmo tratando de assuntos sérios.

C: Durante o processo criativo, qual foi o maior desafio: manter o mistério vivo até o fim ou dar
profundidade emocional aos personagens?

SB: Sem dúvida, o maior desafio foi dar profundidade emocional aos personagens. Eu leio muito thriller e tenho referências como Raphael Montes, Claudia Lemes, Agatha Christie e Freida McFadden. Como uma leitora apaixonada pelo gênero, acredito que consegui dosar bem os momentos de tensão e decidir em que ponto as pistas deveriam aparecer, embora isso só tenha ganhado mais consistência a partir da terceira versão do livro.

O que realmente exigiu mais de mim foi trabalhar a camada emocional dos personagens, porque isso acabou mudando o rumo da história, que ao longo da escrita teve 4 desfechos diferentes, e demandou muita pesquisa para ser construída de forma autêntica.

C: Já existem planos para um próximo livro? O que os leitores podem esperar dos seus próximos projetos?


SB: Sim, estou trabalhando em um novo Young Adult, mas desta vez com uma pegada mais adolescente,
ambientado no universo escolar. Além disso, tenho um romance com o futebol como tema central que está em pausa e que gostaria muito de retomar. Os leitores podem esperar, sem dúvidas, mais histórias cheias de reviravoltas impactantes. Quanto mais thrillers leio, mais sinto que a minha escrita evolui, então acredito que os próximos livros vão trazer finais ainda mais surpreendentes e inesperados.

Gostaria de aproveitar este espaço para agradecer ao portal pela oportunidade e pelo acolhimento, e claro, agradecer também a todas as pessoas que me apoiam nessa jornada da escrita, entre amigos e familiares. Vocês são incríveis, e tenho certeza de que nada disso seria possível sem cada um de vocês na minha vida.

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